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Aqui você poderá ler alguns textos escritos por mim a respeito de saúde mental e cotidiano. 

Espero que você goste!

  • Foto do escritor: Psicóloga Dra Hellen Castro
    Psicóloga Dra Hellen Castro

Atualizado: 13 de set. de 2022


É maio, mês das mães e muitos se alegram em comemorar esta data. É um tempo em que a gratidão e o amor emana de dentro de nós, filhos, e tudo o que queremos é demonstrar tamanho sentimento por aquela pessoa que tanto fez por nós. É tempo de pensar o quanto as mães devem ser honradas e amadas. Agradecemos pela abdicação, dedicação e amor que elas nos ofereceram ao longo da vida.

Mas, e se, por um acaso, a mãe não ama seus filhos tanto assim? Ou ainda usa seus filhos unicamente como fonte provedora de seus desejos e vontades egoístas e egocêntricas? É chocante pensar nisso, né? Verdade, mas isso é real. Existem mães que não amam seus filhos com o amor ideal do qual tanto ouvimos falar e por vezes, de fato, vivenciamos.


Estou falando das mães narcisistas. Mãe narcisista é aquela mãe que usa seus filhos como fonte supridora do seus desejos narcísicos. Em outras palavras, são mulheres, que possuem o transtorno de personalidade narcisista e, por sua vez, são mães. Vamos entender um pouco deste transtorno.

O transtorno de personalidade narcisista -TPN - é basicamente caracterizado por um padrão generalizado de grandiosidade, necessidade de bajulação constante e falta de empatia pelos outros. Um narcisista sente necessidade de ser amado a todo tempo e exige esse amor em forma de servidão, elogios, prontidão em atender suas vontades (ainda que as mais absurdas), se acham superiores, superestimam suas habilidades, inteligência e aparência. Acreditam que são seres especiais e para isso, subestimam as pessoas a sua volta.


Costumam diminuir a autoestima das pessoas com quem se relaciona, com o objetivo de torná-las dependentes de sua presença na vida delas


A necessidade de serem admirados pelos outros denuncia sua autoestima extremamente frágil, que os levam a ter uma baixa tolerância a críticas e rejeição, fazendo com que respondam de forma extremamente irritada e violenta, agredindo psicologicamente e, por vezes, fisicamente de seus “dependentes”.


Quando uma mulher possui TPN e também é mãe, temos um grande problema. Isso porque a criação destes filhos dificilmente será isenta de ser totalmente atingida por este comportamento tão instável. Os filhos de mães narcisistas geralmente sofrem abusos psicológicos graves e, por vezes, agressões físicas. Crescem tendo sua autoestima rebaixada, suas necessidades emocionais extinguidas, fazendo com que sua personalidade se torne confusa e fragilizada.

A experiência clínica tem observado a expressão da agressividade das mães sendo principalmente direcionada para as filhas mulheres. Isto se dá pela autoidentificação inconsciente da mãe com aquela outra mulher (a filha), projetando os sentimentos de raiva e depreciação que na verdade carrega por si mesma.

A grande questão é que essas filhas se tornam vítimas de muitos abusos ao longo do seu desenvolvimento, através da negligência de amor, cuidados básicos, proteção e empatia. É comum crescerem ouvindo xingamentos ou frases do tipo: “você é uma vagabunda”, “ninguém vai te amar e nem querer se casar com você”, “tudo o que você faz dá errado”, “você é incapaz de trabalhar” ou “você sempre foi muito fraquinha e doente”.

No livro “Filhas de Mães Narcisistas: Conhecimento Cura” de Michele Engelke, a autora cita 50 características da mãe narcisista. Abaixo, irei listar 8 delas:


1. Abusa psicologicamente, verbalmente e emocionalmente. Sua filha se torna totalmente dependente da sua aprovação e do seu amor e a mãe, por sua vez, usa essa dependência para manipulação, fazendo-a acreditar que é um ser inferior, dependente e única responsável pela satisfação e bem-estar da mãe pelo resto de sua vida;


2. É dona de uma verdade inquestionável, é totalmente inflexível a mudança de opinião e trata de suas ideias, ainda que sejam as mais absurdas, como verdade absoluta e imutável.


3. Não existe espaço para diálogo e qualquer questionamento se torna uma crise. As verdades por ela ditas variam de acordo com suas necessidades de manipulação;


Sua identidade é totalmente fragilizada e baseada no outro. É comum que seu comportamento, suas roupas, modo de falar, sejam copiados de referências aleatórias ou até mesmo da própria filha. Em geral, são bastante superficiais quanto as opiniões a respeito de beleza e status social, por exemplo;


4. São extremamente fáceis de serem ofendidas e magoadas.


Necessitam de aprovação e elogios em todo tempo e quando não o recebem, interpretam como humilhação, rejeição e desprezo;


5. Não apresentam qualquer sentimento de empatia pelo outro;


6. Nunca admitem ter causado o mal a quem quer que seja, por isso, quase nunca pede desculpas por algo, ao menos que tenha interesse em algo;


7. Mentem descaradamente com a finalidade de se manterem no centro das atenções e conseguirem o que querem, seja se proteger, se auto preservar ou para se esquivar de responsabilidades;


8. Tem inveja de todos que alcançam algo do qual acredita ser o topo da admiração, como beleza, dinheiro e popularidade. É comum invejarem as conquistas da própria filha, aproveitando para diminuí-las e apreciá-las;

Mas não se engane! Essas mães não aparecem de forma tão clara para os demais membros do seu meio familiar ou social. Elas costumam passar para os parentes e amigos quão maravilhosa e esforçada é como mãe e o quão ingratos são seus filhos por terem dificuldades de relacionamento com ela e a julgarem mal.

Em geral, filhos de mães narcisistas acabam por se tornarem adultos inseguros, antissociais, dependentes, sem sonhos e perspectivas para o futuro e até mesmo desenvolvem psicopatologias como depressão, síndrome do pânico, transtornos alimentares, entre outros.

Em uma sociedade onde a mãe é colocada como um ser divino, não há espaço para se falar daqueles que sofrem intensos abusos de suas genitoras, tornando-se um grupo de pessoas oprimidas, subjugadas e muitas vezes desacreditadas pelos parentes e amigos próximos, o que aumenta sua sensação de isolamento. É preciso acolhimento a dor destes filhos e menos romantização das relações familiares, reconhecendo que, a respeito da dor do outro, somente ele sabe.

​Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition (DSM-V). Arlington, VA: American Psychiatric Association, 2013.

Michelle Engelke. Filhas de Mães Narcisistas: O conhecimento cura. 2017

Elisabeth Badinter. Um amor conquistado: O Mito do amor materno. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1985.

  • Foto do escritor: Psicóloga Dra Hellen Castro
    Psicóloga Dra Hellen Castro

Atualizado: 13 de set. de 2022


Engana-se quem acha que o racismo assassina só corpo. Engana-se quem ouve sobre o genocídio negro e diz: “aí está o racismo”. O racismo mata bem antes de matar o corpo.


Primeiro mata a autoestima da menina do cabelo duro, o qual o pente branco não penteia. Daí ele mata a beleza da preta que cresceu ouvindo falarem que ela era feia. Ele mata o menino que, quando pequeno, foi confundido com o pedinte, mesmo sendo só um menino, suado e sujo de tanto brincar de bola ou correr atrás de uma pipa.


Ele mata quando os motoristas sobem os vidros dos carros na recusa de olhar com empatia para a criança, suja, no semáforo. Ou quando se ouve o “cleck” de mais uma porta trancada e retrancada, e que deixa explícito o “aqui não”. Está aí um exemplo do racismo vivido na estrutura social da qual vivemos.

O racismo mata os sonhos daqueles que ouvem o tempo todo que são menores, inferiores e que nunca chegarão lá. Afinal, sua cor não lhe favorece para a travessia para o lado de lá.


Certa vez, sentada em um ônibus na grande cidade de São Paulo, uma mulher puxou assunto comigo e, conversa vai, conversa vem, falou afirmativamente que eu era faxineira. Espantou-se quando eu, sorrindo, disse que era psicóloga e pesquisadora. Está aí o racismo, querendo me mostrar mais uma vez “onde deveria ser o meu lugar”. Digo mais uma vez porque ele está sempre tentando levar pessoas pretas para este lugar.


Já me chamaram de pedinte, já me chamaram de feia, já riram do meu cabelo. Não me esqueço de uma vez quando outras crianças brancas me culparam de coisas as quais eu não havia feito e deixaram bem claro que era porque eu era a negrinha do transporte escolar. “A culpa é desta negrinha”, disse o menino branco para a motorista, da qual chamávamos de tia. E a “tia”, também branca, quieta, não disse nada.

Restou a minha mãe, preta, brigar por mim, uma criança de 7 anos que mal entendia o ódio das crianças brancas por ela.


Sabe o que o racismo faz com o preto? Mata-o todos os dias. Mata seus sonhos, mata suas perspectivas, mata suas oportunidades, mata sua alma. Quando você branco ameniza a dor do racismo ou chama de vitimismo, esta verdade acaba por aniquilá-lo também.


Vão matando silenciosamente a alma aos poucos, antes dos corpos; talvez para que, quando os corpos pretos caiam no chão, os que ainda estão de pé se importem menos. Mas mal sabem que quanto mais pisam, mais pressão se forma e a resistência vem a galope. E não vem sozinha, somos muitos e não vamos em silêncio.

Às vezes, antes de morrerem de corpo, os pretos que ainda circulam já morreram de alma há muito tempo.

  • Foto do escritor: Psicóloga Dra Hellen Castro
    Psicóloga Dra Hellen Castro

Atualizado: 13 de set. de 2022

Diariamente o Brasil tem registrado mais de 200 mortes por COVID-19. E estes números vem crescendo cada vez mais, muitas vezes, nos fazendo sentir refém de um vírus, que é invisível aos olhos. Tendo o número de mortes aumentado diariamente, também é bastante grande o número de pessoas afetadas pela dor de ter perdido alguém.


É fato que nós, seres humanos, fazemos uso dos ritos de passagem para elaboração da finalização de uma fase da vida para início de uma nova. Exemplos clássicos de ritos de passagem são aniversários, formaturas, casamentos, bodas de prata, etc. Segundo Rivière, os ritos de passagem – no caso da morte podemos citar o velório e enterro – são elementos que nos auxiliam a elaborar mentalmente fortes cargas emocionais. Se em meio a pandemia os velórios não são permitidos, como seria passar pelas fases luto já tão difíceis em situações normais?

Lidar com a morte é algo que traz diversas sensações: medo, ansiedade, saudade, tristeza profunda, por vezes até mesmo raiva por ter pedido um ente tão próximo e querido. Alguns destes sentimentos são oriundos de algo que, segundo a psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross, são denominadas fases do luto. O luto é compreendido por 5 fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

Esta nova forma de ter que lidar com a morte pode impactar significativamente a estrutura emocional de quem perde alguém e, por ser uma situação atípica, pode ser algo que influencie diretamente na forma como a pessoa lida com as próximas fases da vida. Existem algumas alternativas que podem ajudar a passar pelas fases do luto, chegando a aceitação e podendo seguir de forma emocionalmente saudável após este ciclo da vida.

  1. Faça um velório simbólico, reserve um tempo para pensar na pessoa, lembrar de situações marcantes que vivenciou com ela. Pode fazer isso utilizando fotos e lembranças materiais que te lembrem a pessoa. Estar conectada com a pessoa, através de algo físico ajuda a elaborar a ausência do corpo que você não pôde ter por falta do velório.

  2. Converse com pessoas que também tinham carinho pelo ente querido que se foi. Receber carinho de pessoas queridas e compartilhar momentos ajuda a aliviar a dor. Falar sobre o assunto, trazer à tona memórias boas, ajuda a mente a elaborar os sentimentos e dar novo sentido ao acontecimento.

Vale ressaltar que quando se percebe que o luto tem demorado a passar ou tem sido extremamente difícil de lidar, torna-se essencial a busca por ajuda de um psicólogo, que é o profissional mais indicado para qualquer tipo de questões emocionais.


Referências:


BASSO, Lissia Ana e WAINER, Ricardo. Luto e perdas repentinas: contribuições da Terapia Cognitivo-Comportamental. Rev. bras.ter. cogn. [online]. 2011, vol.7, n.1 [citado 2020-04-24], pp. 35-43 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872011000100007&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1808-5687.

Kuble r-Ross E. Sobre a morte e o morrer. Rio de Janeiro: Editora Martins Fontes; 1985.

Rivière, C. (1997). Os ritos profanos. Petrópolis: Vozes. [ Links ].

SOUZA, Christiane Pantoja de and SOUZA, Airle Miranda de. Rituais Fúnebres no Processo do Luto: Significados e Funções. Psic.: Teor. e Pesq. [online]. 2019, vol.35 [cited 2020-04-24], e35412. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722019000100509&lng=en&nrm=iso>. Epub July 04, 2019. ISSN 0102-3772. https://doi.org/10.1590/0102.3772e35412.

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