Filhas de mães narcisistas: reconhecendo o abuso silencioso


Somos ensinados, desde cedo, que o amor de mãe é incondicional. Que a gratidão e o amor emanam naturalmente de nós, filhos, em relação àquela pessoa que tanto fez por nós. Aprendemos a pensar no quanto as mães devem ser honradas e amadas, e a agradecer pela abdicação, dedicação e amor que elas nos ofereceram ao longo da vida.
Mas, e se, por acaso, a mãe não amar seus filhos tanto assim? Ou ainda usar seus filhos unicamente como fonte provedora de seus desejos e vontades egoístas e egocêntricas? É chocante pensar nisso, né? Verdade, mas isso é real. Existem mães que não amam seus filhos com o amor ideal do qual tanto ouvimos falar e, por vezes, de fato, vivenciamos.
Estou falando das mães narcisistas. Mãe narcisista é aquela que usa seus filhos como fonte supridora de seus desejos narcísicos. Em outras palavras, são mulheres que possuem o transtorno de personalidade narcisista e, por sua vez, são mães. Vamos entender um pouco deste transtorno.
O transtorno de personalidade narcisista — TPN — é basicamente caracterizado por um padrão generalizado de grandiosidade, necessidade de bajulação constante e falta de empatia pelos outros. Um narcisista sente necessidade de ser amado a todo tempo e exige esse amor em forma de servidão, elogios, prontidão em atender suas vontades (ainda que as mais absurdas); se acham superiores, superestimam suas habilidades, inteligência e aparência. Acreditam que são seres especiais e, para isso, subestimam as pessoas ao seu redor.
Costumam diminuir a autoestima das pessoas com quem se relacionam, com o objetivo de torná-las dependentes de sua presença na vida delas.
A necessidade de serem admirados pelos outros denuncia sua autoestima extremamente frágil, que os leva a ter uma baixa tolerância a críticas e rejeição, fazendo com que respondam de forma extremamente irritada e violenta, agredindo psicologicamente e, por vezes, fisicamente, seus "dependentes".
Quando uma mulher possui TPN e também é mãe, temos um grande problema. Isso porque a criação destes filhos dificilmente será isenta de ser totalmente atingida por este comportamento tão instável. Os filhos de mães narcisistas geralmente sofrem abusos psicológicos graves e, por vezes, agressões físicas. Crescem tendo sua autoestima rebaixada, suas necessidades emocionais extinguidas, fazendo com que sua personalidade se torne confusa e fragilizada.
A experiência clínica tem observado a expressão da agressividade das mães sendo principalmente direcionada às filhas mulheres. Isto se dá pela autoidentificação inconsciente da mãe com aquela outra mulher (a filha), projetando os sentimentos de raiva e depreciação que, na verdade, carrega por si mesma.
A grande questão é que essas filhas se tornam vítimas de muitos abusos ao longo do seu desenvolvimento, através da negligência de amor, cuidados básicos, proteção e empatia. É comum crescerem ouvindo xingamentos ou frases do tipo: "você é uma vagabunda", "ninguém vai te amar e nem querer se casar com você", "tudo o que você faz dá errado", "você é incapaz de trabalhar" ou "você sempre foi muito fraquinha e doente".
No livro Filhas de Mães Narcisistas: Conhecimento Cura, de Michele Engelke, a autora cita 50 características da mãe narcisista. Abaixo, listo 8 delas:
Abusa psicologicamente, verbalmente e emocionalmente. A filha se torna totalmente dependente de sua aprovação e do seu amor, e a mãe, por sua vez, usa essa dependência para manipulação, fazendo-a acreditar que é um ser inferior, dependente e única responsável pela satisfação e bem-estar da mãe pelo resto de sua vida.
É dona de uma verdade inquestionável. É totalmente inflexível à mudança de opinião e trata suas ideias, ainda que sejam as mais absurdas, como verdade absoluta e imutável.
Não existe espaço para diálogo e qualquer questionamento se torna uma crise. As verdades por ela ditas variam de acordo com suas necessidades de manipulação.
Sua identidade é totalmente fragilizada e baseada no outro. É comum que seu comportamento, suas roupas, seu modo de falar sejam copiados de referências aleatórias ou até mesmo da própria filha. Em geral, são bastante superficiais quanto às opiniões a respeito de beleza e status social, por exemplo.
São extremamente fáceis de serem ofendidas e magoadas. Necessitam de aprovação e elogios o tempo todo e, quando não os recebem, interpretam como humilhação, rejeição e desprezo.
Não apresentam qualquer sentimento de empatia pelo outro.
Nunca admitem ter causado mal a quem quer que seja; por isso, quase nunca pedem desculpas por algo, a menos que tenham algum interesse nisso.
Mentem descaradamente com a finalidade de se manterem no centro das atenções e conseguirem o que querem, seja para se proteger, se autopreservar ou para se esquivar de responsabilidades.
Mas não se engane: essas mães não aparecem de forma tão clara para os demais membros do seu meio familiar ou social. Elas costumam passar para parentes e amigos a imagem de quão maravilhosa e esforçada são como mãe, e o quão ingratos são seus filhos por terem dificuldades de relacionamento com elas e por julgá-las mal.
Em geral, filhos de mães narcisistas acabam se tornando adultos inseguros, antissociais, dependentes, sem sonhos e perspectivas para o futuro, e podem até desenvolver psicopatologias como depressão, síndrome do pânico e transtornos alimentares, entre outras.
Em uma sociedade onde a mãe é colocada como um ser divino, muitas vezes não há espaço para se falar daqueles que sofrem intensos abusos de suas genitoras — tornando-se um grupo de pessoas oprimidas, subjugadas e, por vezes, desacreditadas pelos parentes e amigos próximos, o que aumenta sua sensação de isolamento. É preciso acolher a dor destes filhos e romantizar menos as relações familiares, reconhecendo que, a respeito da dor do outro, somente ele sabe.
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition (DSM-V). Arlington, VA: American Psychiatric Association, 2013.
ENGELKE, Michele. Filhas de Mães Narcisistas: O conhecimento cura. 2017.
BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: O Mito do amor materno. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985.



